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17
Ago17

Capítulo 53

por Pedro Rodrigues

No dia seguinte, mais ou menos à hora marcada, Luís bateu à porta da casa de Sandra. Quem veio à porta foi a mãe desta, que o informou que a filha tinha ido a casa de Maria. Surpreendido, Luís regressou à rua e, para não perder mais tempo, apanhou um táxi para a Estefânia. Ao entrar em casa de Maria, esta disse:

- Deixa-me adivinhar... já foste a casa da Sandra!

- Como é que sabes?

- Porque ela está aqui, mas esqueceu-se por completo de te avisar...

- Aconteceu-lhe alguma coisa para uma mudança tão grande de planos?

- Vai ver com os teus próprios olhos...

- Onde é que...

- Na sala...

Ao ver Luís, Sandra disse:

- Mil perdões, Luís... esqueci-me por completo de te avisar que vinha para aqui!

- Não te preocupes...

Ao cumprimentá-la, Luís notou qualquer coisa de estranho na amiga.

- O que é que tens? Estiveste a chorar? O que é que se passou contigo?

- Ontem à noite em Alcântara... apanhei o Raul em flagrante com outra mulher, muito mais velha que eu. Tivemos uma enorme discussão e acabámos tudo um com o outro.

Sandra abraçou-se a Luís a chorar.

- Calma, Sandra... o mundo não acaba por causa disso. Sei que custa muito descobrir por nós próprios que estamos a ser traídos, mas faz-me um grande favor. Não chores!

- Onde foi que eu errei, meu Deus?! Eu sempre fui leal com o Raul! O meu amor por ele...

- Pára, Sandra! Não te martirizes mais, por favor! Tu não tens culpa nenhuma do que aconteceu!

- Tenho sim, Luís, e muita! Eu confio em demasia nas pessoas, e depois é isto que acontece...

- Sandra... se alguém tem culpa do que aconteceu só pode ser esse tal Raul, mais ninguém! O que ele te fez apenas prova que não te merece. Esquece-o, por favor! - disse Luís, pegando nas mãos de Sandra.

Maria, que até ao momento permanecera calada, disse:

- Amigos, vou ali ao supermercado comprar qualquer coisa para o nosso lanche. Fiquem à vontade...

- Queres ajuda? - perguntou Sandra.

- Deixem-se estar... não me demoro nada...

- Já que insistes...

Quando Maria saiu, Sandra e Luís prosseguiram a conversa.

- Sandrinha... perdoa-me a minha insistência...

- Porquê?!

- Passar as férias longe de ti só veio piorar as coisas...

- Não percebo...

- Este tempo todo sem te ver só veio confirmar que o amor que sinto por ti não é uma brincadeira...

- Oh Luís... eu não mereço o teu amor...

- Sandra, se tu não mereces o meu amor, mais ninguém neste mundo o merecerá...

- Nem a Maria?

- Achas que seria justo eu magoar a Maria? Não faz sentido eu pedir namoro a uma rapariga, sabendo que gosto de outra. Apenas te peço uma oportunidade...

- Luís, eu não te quero desiludir... mas é que ainda ontem acabei um namoro, e acho que ainda não estou preparada para começar já com outro. Só preciso que me dês um tempo...

- Todo o que tu quiseres! Se já esperei até aqui, não me custa nada esperar mais um pouco. E... será que posso ter esperanças?

Sandra sorriu e disse:

- Podes...

Luís sorriu, pegou nas mãos de Sandra e beijou-as.

- Não imaginas a alegria que me dás ao dares-me essa resposta.

Naquele momento, Maria entrou na sala. Com um enorme sorriso, disse:

- Vamos lanchar, pombinhos?

- Hã?!... Estavas ai? - perguntou Sandra, dando um salto.

- Sem querer ouvi os últimos instantes da vossa conversa. Vá lá, Sandra! Gostava tanto que vocês se acertassem! Pela tua felicidade e pela do Luís, dá-lhe uma oportunidade...

- Preciso de um tempo...

- Esperar mais para quê?! Vocês já não sofreram o suficiente? Acho que esse tempo que tu pedes só irá contribuir para prolongar, ainda mais, o vosso sofrimento...

- Acho que tens razão, mas...

- Mas o quê?! Do que é que estão à espera para darem o vosso primeiro beijo?!

Luís e Sandra deram as mãos, olharam-se olhos nos olhos e beijaram-se.

 

CONTINUA...

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17
Ago17

Capítulo 52

por Pedro Rodrigues

A Cister é uma simpática e acolhedora pastelaria da Rua da Escola Politécnica, entre a Rua da Imprensa Nacional e o Príncipe Real. Depois de estarem servidos, Luís disse:

- Fiquei tão triste quando soube que não podia ir a Válega...

- Pois é, Luís, mas surgiu-me esta oportunidade e não quis desperdiçá-la. Quase nem tinha tempo para ir a Marinhais!

- Acho que fizeste muito bem... ao menos sempre ganhas algum dinheiro.

- É o ordenado mínimo, mas ao fim do mês sabe bem...

- Também tenho de ir à procura de qualquer coisa...

- Sobre isso acho que tenho a solução para ti...

- O quê?!

- Sabes o Sr. Augusto... no fim do mês vai para a reforma, e tu podes muito bem substituí-lo!

- E achas que tenho hipóteses?

- Mas é claro que tens! É só eu falar com a D.ª Júlia e podes ter a certeza que terás o emprego garantido!

- Deus te oiça, amiga! E outra coisa... a Maria falou-me de um curso de informática ao pé de tua casa...

- Sim, é na Formac! Se queres começar a tirar um curso até ao fim do Verão, pagas apenas 15 contos por cada módulo...

- Hmm... vou pensar nisso! Agora só me interessa o tal emprego... em todo o caso, dás-me a morada da escola?

- Claro! Até tenho aqui o papel que me puseram na caixa do correio...

- Obrigado! Para a semana passo por lá... mas há um problema! Não tenho computador...

- Se quiseres podes vir a minha casa...

- Isso depois combina-se melhor...

- Queres ir falar agora com a D.ª Júlia sobre o emprego?

- Quero, pois!

 

Sandra e Luís regressaram à Junta de Freguesia de São Mamede.

- Boa tarde uma vez mais, Sr. Augusto! A D.ª Júlia ainda está por aí?

- Está, sim...

- Podemos ir falar com ela?

- Estejam à vontade!

- A D.ª Júlia é a tua chefe? - segredou Luís.

- Claro! É a presidente... - disse Sandra, batendo à porta de Júlia.

- Entre...

- D.ª Júlia, tem uns minutinhos para nós?

- Claro, Sandra... entra!

- Em primeiro, apresento-lhe o meu amigo Luís.

- Prazer! - disse Júlia estendendo a mão a Luís, que a apertou.

- O prazer é todo meu, D.ª Júlia!

- O que é que vos trouxe até aqui?

- Falas tu?

- Sim... D.ª Júlia, soube aqui pela Sandra que o Sr. Augusto ia-se reformar, e que no fim deste mês deixará o seu lugar vago. Eu, que ando à procura do primeiro emprego, vinha ver se tinha possibilidades de ficar com esse lugar...

- Bom... em princípio penso que sim! E sabes o que é que vais ter de fazer?

- Mais ou menos...

- Então é assim... O Sr. Augusto é o recepcionista, mas quando é necessário ir à rua fazer um recado - fazer pagamentos, levar o correio, etc... - pede à Sandra ou a outra pessoa que estiver na sala de convívio para ir para a recepção. O horário é das nove às sete da tarde, com hora e meia para o almoço, e o ordenado é o mínimo. Queres tentar?

- Quero!

- Então preenche este impresso e dia 13, às 21h00, aparece aqui na reunião do executivo que irá aprovar, ou não, esta proposta. Se a tua proposta for aceite, assinas de imediato o contrato.

- Por quanto tempo?

- Seis meses, mas não te preocupes pois só uma coisa muito grave impediria a renovação. Ao fim de ano e meio entras para o quadro.

Depois de preencher o impresso, Luís entrega-o a Júlia.

- Bom... acho que não falta mais nada!

- Não, não... quando quiserem podem ir embora.

- Sendo assim, boa tarde e muito obrigado!

- Não tens de me agradecer a mim, mas sim à Sandra...

- Até segunda, D.ª Júlia!

- Adeus! Bom fim-de-semana e divirtam-se!

 

À saída da Junta de Freguesia, Luís pergunta:

- Vais para casa?

- Tenho de ir! Vou tomar um banho e depois vou a Alcântara ter com o Raul...

- Sendo assim, faço já aqui as despedidas...

- Espera! Sempre queres ir amanhã a minha casa?

- A que horas posso ir?

- Depois de almoço... às duas, dá para ti?

- Perfeitamente!

- Então até amanhã... e diverte-te!

- Já que eu não posso ter esperanças num futuro namoro contigo, desejo-te as maiores felicidades com esse Raul...

- Obrigado, amigo! Também desejo que, muito em breve, encontres alguém que te mereça mais do que eu... Até amanhã!

- Adeus...

 

CONTINUA...

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16
Ago17

Capítulo 51

por Pedro Rodrigues

O tempo foi passando... A alegria e ansiedade de Luís foram-se transformando, aos poucos, em desespero. Ao longo de todo o terceiro período escolar tudo continuou na mesma no que à Sandra dizia respeito. Entretanto chegou o Verão e, consequentemente, as férias grandes. Aquelas seriam as últimas férias grandes de Luís, pois este estava decidido, a partir de Setembro, em arranjar trabalho.

Tal como havia dito a Maria, Luís decidiu ir à terra. À sua chegada, Sofia, Fernanda e Daniel deram-lhe as boas-vindas e fizeram-lhe uma festa, como se já não o vissem há muitos anos. Para surpresa de tudo e de todos, em Julho as suas primas, Maria João e Elizabete, foram passar duas semanas a Válega. É óbvio que foram recebidas como duas "rainhas", pois há cerca de cinco anos que ali não iam. Naturalmente, a estadia de ambas foi sendo esticada. Primeiro mais uma semana, logo a seguir outra, até que em Agosto se juntaram as primas de Luís com Maria. Sandra não põde ir, pois tinha tinha arranjado um emprego temporário para os meses de Agosto e parte de Setembro. A princípio Luís ficou um pouco triste, mas rapidamente esqueceu aquilo, pois as primas e Maria tudo fizeram por isso. Maria esteve apenas em Válega durante a primeira semana de Agosto, pois também ela tinha arranjado trabalho até ao final do mês. Aproveitando a boleia de Maria, as primas de Luís decidiram-se também pelo regresso a Lisboa.

O resto de Agosto passou-se com relativa tranquilidade. Os pais de Luís decidiram ir a Válega passar uns dias, junto com o filho. Durante aquele período, de intenso calor, quase todos os dias iam ao Furadouro. Para além disso, aproveitaram aqueles magníficos dias de sol para piqueniques, quase sempre junto à ria de Aveiro. No entanto, nem todos aqueles passeios faziam Luís esquecer Sandra. Era evidente a sua ansiedade para que Agosto terminasse. Naquele momento, nada o prendia à terra. Nem os amigos Sofia, Fernanda e Daniel, nem mesmo uma tentadora proposta de trabalho numa das maiores empresas de Oliveira de Azeméis resfriaram a vontade de Luís em regressar à capital. Tudo em nome de um amor que ele achava possível.

Finalmente, Setembro chegou. Quando Luís se despediu dos amigos, ficou no ar a promessa de que em breve os visitaria. O dia 1 de Setembro foi a data escolhida para o regresso a Lisboa. Após o almoço Luís foi visitar Maria.

- Posso, amiga?

- Oh Luís, que surpresa boa! Entra!

- Como está a melhor amiga do mundo?

- Óptima, e tu?

- Ansioso para que Agosto terminasse...

- Pois! Já percebi...

- Que tal correu o teu trabalho na tal fábrica?

- Foi fixe! Deu para ganhar algum dinheirinho...

- E a Sandra... como é que ela está?

- Lamento informar-te amigo, mas aquele rumores de que o namoro dela com o Raul não ia lá muito bem, por enquanto, não se confirmaram...

- Então tudo continua na mesma...

- Sim, mas não desanimes... aconselho-te a fazer-lhe uma visita. Compra-lhe umas flores, convida-la para lancharem...

- Ela está em casa?

- Está a trabalhar, mas eu dou-te a morada do emprego... - disse Maria, entregando um pequeno cartão a Luís.

- Rua Nova de São Mamede... já sei onde é!

- Óptimo! Assim que forem umas cinco horas vais ter com ela...

- Ela está numa Junta de Freguesia?

- Está a fazer as férias de uma senhora que está com licença de parto.

- Hmm... muito bem!

- Outra coisa... percebes alguma coisa de computadores?

- Não...

- Nem estás interessado em perceber?

- Talvez... porquê?

- Ao pé de casa da Sandra há uma escola que, até ao fim do mês, tem uma excelente promoção de Verão. Por quinze contos podes começar a tirar, aos poucos, o teu curso...

- Vou pensar nisso, amiga... que horas são?

- Três e meia.

- Vou andando, amiga. Vou-me arranjar, dar uma volta por aí à procura de um presentinho, e depois que seja o que Deus quiser! Tens a certeza que esse tal Raul não tem a mesma ideia que eu de ir ter com a Sandra ao trabalho?

- Não te preocupes! O Raul trabalha num restaurante e só saí à noite...

- Óptimo amiga! Então até logo!

- Boa sorte!

 

Luís foi a casa tomar banho, vestir uma roupa lavada e saiu para a rua. Apanhou o metro para Baixa, onde sabia que encontraria floristas. Na primeira que encontrou, comprou um pequeno ramo de rosas brancas, símbolo da amizade. No Carmo apanhou o eléctrico que o levaria até à Rua da Escola Politécnica, junto à Igreja de São Mamede. Depois de descer do eléctrico, procurou pela sede da Junta de Freguesia. Felizmente não era nada difícil, pois era só atravessar a rua. Subiu umas escadas que davam acesso a um pequeno pátio e dirigiu-se à recepção.

- Boa tarde! Podia-me dizer, por favor, se a Sandra veio trabalhar hoje?

- Veio, sim... quer que o anuncie?

- Se não fosse pedir muito, gostaria de lhe fazer uma surpresa...

- Compreendo... só precisa de ir encostado a esta parede e entrar na segunda porta.

- Sabe se ela está com alguém?

- Não! Aliás, ela está é quase a sair...

- Muitíssimo obrigado, senhor...

- Augusto.

Luís seguiu as instruções que o Sr. Augusto lhe tinha dado. Assim, na segunda porta deu três pancadinhas, fazendo-se anunciar.

- Entre...

- Posso?!

- Oh Luís, que surpresa! Entra! O que é que fazes por aqui?

- Como soube que saías agora às cinco, vim convidar-te para um lanche comigo... mas em primeiro lugar...

- Oh Luís! Muito obrigada, são lindas!

- Então, aceitas o meu convite?

- É só acabar de arrumar isto...

- Escusas de correr, não tenho pressa nenhuma! O que é que fazes aqui?

- Como deves ter reparado, isto é uma sala de convívio para jovens adolescentes. Das nove às sete está aberta para quem quiser vir para aqui jogar computador, cartas, damas, xadrez... temos uma mesa de matraquilhos aí fora, enfim... quem quiser vir para aqui ocupar os seus tempos livres. Quem não quiser jogar, pode ver televisão, ouvir música, ler - temos uma pequena biblioteca ali dentro - ou, simplesmente, conversar.

- Muito bem! E tu estás aqui a tomar conta do pessoal...

- Sim, mas não só! Como vês o espaço não é muito, por isso quem quiser vir para aqui tem de se inscrever de véspera. Consoante o número de inscritos, poderá utilizar o computador durante meia, uma ou duas horas. Com os restantes jogos, as condições de utilização são exactamente as mesmas.

- Estou a gostar! Se isto só fecha às sete, quem é que vem para aqui substituir-te?

- O Vítor, o Pedro ou a Patrícia, consoante os dias...

- Pois... faz de conta que eu conheço essa malta toda!

- Não conheces mas podes vir a conhecer! É malta da mais porreira que pode existir!

- Isto hoje está pouco concorrido...

- Com o calor que está a malta foi toda para a praia, mas se cá vieres mais daqui a nada encontras isto cheio.

Enquanto Sandra arrumava as coisas, chegou Pedro:

- Como vai a minha amiga?

- Tudo numa boa, e contigo?

- Tudo em cima!

- Pedro, apresento-te o meu grande amigo Luís. Luís, este é o Pedro...

Depois das apresentações, Sandra despede-se do colega. Em seguida dirigem-se à recepção, onde aquela se despede do Sr. Augusto.

- Adeus Sr. Augusto, bom fim-de-semana!

- Até segunda, Sandra!

- Obrigado, Sr. Augusto!

- Não precisas de me agradecer, rapaz... divirtam-se!

Ao fundo das escadas que conduziam à rua, Luís perguntou:

- Onde é que queres ir lanchar?

- À Cister... segue-me!

 

CONTINUA...

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16
Ago17

Capítulo 50

por Pedro Rodrigues

Durante as férias da Páscoa, Luís não viu Sandra. Ao invés, via Maria quase todos os dias. Na segunda-feira da Páscoa lancharam juntos num acolhedor café da Rua Pascoal de Melo.

- Porque é que não foste a Ovar nestas férias, amigo?!

- Custa-me tanto lá ir, Nanda... acreditas que já lá não meto os pés desde o funeral da Teresa? Não existe um unico lugar em Paço que não me faça lembrar dela. Mas... sou capaz de lá ir neste Verão.

- Isso mesmo, Luís! Repara numa coisa, amigo... é quase impossível esquecer a morte de uma pessoa de quem se gosta muito, certo? Isso quer dizer que, como nunca vais conseguir esquecer a Teresa, jamais irias a Ovar por causa desses motivos. E quais seriam as principais consequências desse acto que tu, certamente, não quererás?

- A perda de contacto com o Daniel, a Fernanda e a Sofia...

- Exactamente!

- Queres lá ir passar uns dias comigo?

- Se me quiseres lá...

- Claro que quero, tonta! Tu e a Sandra...

- É verdade! Já sei de tudo!

- De tudo o quê?!

- Que te declaraste à Sandra...

- Grande coisa! Ela já tem namorado...

- Não percas a esperança, aquilo não é namoro para durar muito tempo...

- Não foi isso que ela me deu a entender...

- Ela disse-te que por nada deste mundo o queria perder... não ligues! Isso era naquele dia! Ontem estive com ela e soube que nem tudo vai bem com o namoro deles.

- A sério?!

- Achas-me com cara de mentirosa? Luís, não percas a esperança! Quando for a altura certa para lhe voltares a pedir namoro eu digo-te, tá?

- Fazes isso por mim?

- Claro que sim, Luís!

- Tu não existes, Maria... sem a tua amizade e a da Sandra eu não era ninguém...

- Não digas tolices! Tu só nos conheces há dois anos e tal, e antes?! Eras um zé-ninguém? Não me parece!...

- Mas aí era diferente...

- Não sejas pessimista... isso não te leva a lado nenhum! Responde-me só a uma coisa, quais foram as tuas notas?

- Tive 15 a Geografia, 12 a História e anulei a Filosofia...

- Hmm... como tu não queres continuar os estudos, pelo menos por enquanto, escusas de te preocupar com as notas. És inteligente, não precisas de te esforçar muito para, se quiseres, subires mais um bocado a História. E para o ano, se quiseres, fazes a Filosofia à noite, no Camões ou em outra escola qualquer. Tirando isso, preocupa-te apenas com uma coisa! Com uma pessoa de quem gostas muito, e que se chama Sandra. Mas não podes ser pessimista! Atira-te de cabeça e com pensamento positivo!

- Vou fazer todos os possíveis para que isso aconteça!

- É assim mesmo que gosto de te ver! Alegre, decidido a conquistar uma coisa, nem que essa coisa esteja num local de acesso quase impossível. Meu amigo, só te vou dar mais um pequeno-grande conselho... caso tenhas sorte com a Sandra, e se quiseres que a vossa relação seja duradoira, não podes esconder nada dela. Ela é uma excelente pessoa, mas se descobre que estão a enganá-la ou a traí-la pelas costas, então esquece! Não tens a mínima hipótese com ela...

Maria olhou para as horas, e disse:

- Ai amigo, distraí-me completamente com as horas... tenho de ir para casa.

- Vou já chamar o empregado de mesa... - disse Luís.

Depois de tudo pago, Luís e Maria despediram-se.

 

CONTINUA...

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15
Ago17

Capítulo 49

por Pedro Rodrigues

Durante os meses de Janeiro e Fevereiro tudo correu dentro da normalidade. Em Março realizaram-se as eleições para a Associação de Estudantes. Uma lista constituída por alunos do 12.º ano foi a vencedora, com mais de cem votos de avanço. À frente da mesma estava o Leandro, coadjuvado pela Sandra, Inês, Rui, Carlos, Filipa, Luís, Bernardo, Cabral e Carla, só para falar dos que pertenciam ao 12.º 3.ª.

Na última semana de aulas do segundo período, a Associação de Estudantes organizou uma visita de estudo aberta a todos os alunos da escola. Assim, a 6 de Abril de 1995, uma quinta-feira, cerca de uma centena de alunos, divididos por dois autocarros, partiram à descoberta da belíssima região do Oeste. Alcobaça, Óbidos, Peniche e a Ericeira seriam os principais destinos a visitar.

A partida foi dada pouco depois das oito da manhã da Praça José Fontana. O primeiro destino seria Alcobaça, onde chegaram por volta das dez horas, depois de uma curta paragem na área de serviço de Aveiras de Cima. Após um pequeno passeio pela recente cidade, seguiu-se a visita obrigatória ao seu sumptuoso mosteiro. Para além da igreja, onde se encontram os imponentes túmulos de D. Pedro I e Inês de Castro, passearam pelo claustro e visitaram a cozinha, com a sua imponente chaminé. Para quem ali ia pela primeira vez, a surpresa foi total ao ver que no interior daquela cozinha passava um rio. Após a visita ao mosteiro seguiram-se uns minutos de espera, aguardando a partida para o próximo destino: Óbidos.

Em Óbidos, onde chegaram já passava do meio-dia, debaixo de um sol quente de mais para a época, a primeira coisa a fazer foi procurar uma sombrinha para o almoço. Luís, naturalmente, juntou-se ao seu grupo. A Sandra, o Leandro, o Carlos, a Célia e a Marta. Há muito que tinha deixado as companhias da Inês, do Rui e da Carla. Tal como ele, Carlos ignorava por completo a ex-amiga Inês. Após o almoço, seguiu-se um mini peddy-papper, que se disputaria no interior das muralhas de Óbidos. Luís escolheu, para formar equipa consigo, a Sandra, a Marta e o Leandro. Por sua vez, o Carlos ficaria com o Rui, Cabral e "Skip". Após mais de uma hora de correrias pela vila de Óbidos, contabilizaram-se os pontos e chegou-se à conclusão que a vitória seria absolutamente feminina. A equipa da Inês, Carla, Tânia e Filipa foi a grande vencedora, com um escasso ponto de avanço para uma equipa de alunos do 7.º ano. As equipas de Carlos e Luís foram desclassificadas por excederem o tempo previsto. Depois de tão cansativa prova, o descanso no ponto mais alto das muralhas do velho castelo, observando uma bonita paisagem.

Depois de Óbidos a viagem prosseguiu, ao som de muita música. De manhã, o recente Super Mix 9 alternou com o Unplugged dos Nirvana. Agora, a caminho do Baleal, Sandra impôs-se, querendo ouvir Madredeus. E assim, a magnífica voz de Teresa Salgueiro fez-se ouvir, alto e bom som, pelo autocarro onde aquela seguia.

Não havia dúvida nenhuma que os alunos do Liceu Camões foram bafejados pela sorte. Na primeira semana de Abril, um autêntico dia de Verão é obra! A temperatura rondava os 30ºC. Ainda por cima, numa região onde é raríssimo, mesmo em pleno Verão, haver um dia como aquele, onde não corria ponta de vento, apesar de estar uma pontinha de neblina. É óbvio que a paragem no Baleal foi aproveitada para darem um mergulho. Ninguém, obviamente, faltou à chamada. Após o primeiro mergulho do ano, seguiu-se o lanche numa acolhedora esplanada com vista para a praia. Já passava das cinco horas quando se fizeram à estrada. Sem paragem, atravessaram a cidade de Peniche em direcção ao Cabo Carvoeiro, numa magnífica estrada à beira-mar. A pouca neblina que estava não deixou ver as Berlengas, o que causou enorme decepção a quem esperava avistar os ilhéus. Depois de nova travessia de Peniche, seguiram viagem pela Lourinhã e Torres Vedras. Devido à hora tardia, a professora Cristina Faria já não queria ir à Ericeira, o que originou um pequeno conflito. Sandra, com ajuda de Carlos, Luís, "Skip" e Leandro decidiu parar o autocarro à entrada de Torres, e só arrancaram quando Cristina Faria se decidiu, finalmente, ir à Ericeira. Contudo, a paragem na Ericeira não durou mais do que meia-hora.

Na última etapa da viagem, a caminho de Lisboa, passaram por Mafra, Malveira e Loures, ao som de "Cross Road/The Best of Bon Jovi". Durante esta fase da viagem, Luís sentou-se ao lado de Sandra.

- Posso ser teu "vizinho" até Lisboa?

- Claro, Luís... a tua companhia é sempre agradável!

- E então, gostaste do passeio?

- Adorei! Então daquele mergulho no Baleal... cinco estrelas!

- Só é pena a Maria não ter vindo...

- Coitada, ela queria tanto vir connosco... mesmo assim, ainda nos divertimos imenso.

- Já conheces a Maria há quanto tempo?

- Desde o 7.º ano...

- No Camões?

- Sempre no Camões...

- E neste tempo todo, sempre foram grandes amigas?

- Sempre não, pois quando iniciámos o 7.º ano não nos conhecíamos de lado nenhum. Mas com o tempo fomos ganhando a confiança uma da outra, até que nos tornámos em grandes amigas... isto ainda no 7.º ano.

- Quando entrei para o Camões, a pessoa que me chamou mais a atenção foi, como sabes, a Sílvia. Ao princípio não simpatizava muito com ela, mas com o passar do tempo tudo mudou.

- Tu também gostas muito da Maria, não gostas?

- Considero-a a melhor amiga do mundo! Mas também não me posso esquecer de tudo o que fizeste por mim quando a Teresa morreu. Seria injusto não te dizer isto, mas se pudesse colocar a amizade dela e a tua nos dois pratos de uma balança, penso que pesariam a mesma coisa.

- Oh Luís, não exageres! Ao pé da Maria, a minha amizade não vale nada.

Luís pôs o braço nos ombros de Sandra, e disse:

- Estás a ser injusta contigo própria... o que acabaste de dizer é o maior disparate que já ouvi hoje! Tu és das poucas pessoas em quem eu posso confiar na nossa turma, Sandra... e além disso, todo o apoio que me deste quando a Teresa morreu só vem provar que tudo o que eu disse é a mais pura verdade!

- Mudando de assunto... acho que está mais do que na hora de arranjares uma namorada...

- Não digas isso... prometi a mim mesmo que não o faria até ao fim do ano lectivo. A Teresa morreu há tão pouco tempo...

- Acho muito louvável essa atitude vinda de ti, mas quando acabarem as aulas penso que deverias começar a pensar nisso. Tens alguém debaixo de olho?

- Não...

- Para te ajudar, vou dizer-te o nome de uma pessoa que, com toda a certeza, não te dava com os pés!

- Quem?!

- A Maria...

- És doida! Nunca senti nada mais do que amizade pela Maria...

- Diz-me, olhos nos olhos, que se a Maria te desse uma oportunidade não ias logo a correr para os braços dela?

- Já alguém te disse que tens uns olhos lindos?

- Vá lá, não mudes de conversa seu brincalhão!

- A sério! Tens uns olhos de deixar qualquer um apaixonado por ti...

- Muito obrigada pelo elogio, mas ainda não respondeste à pergunta que te fiz. Aceitavas ou não se a Maria te pedisse em namoro?

- Por dois motivos, não!...

- E quais são esses motivos?

- Em primeiro lugar, porque pela Maria não sinto nada mais que não seja uma grande amizade.

- E...

- Em segundo lugar, porque sinto uma enorme atracção por outra pessoa - disse Luís, pegando na mão de Sandra.

- E pode-se saber quem é essa pessoa? - perguntou Sandra fazendo-se de desentendida, pois quando Luís lhe pegou na mão, automaticamente soube logo a resposta.

Luís engoliu em seco, e disse:

- Faz tempo que te quero dizer isto, Sandrinha... estou completamente apaixonado por ti...

- Luís, posso dar-te um conselho?

- Sou todo ouvidos...

- Amigo... por mais que eu me sinta lisonjeada, não posso aceitar, de maneira nenhuma, essa tua paixão. Como tu sabes, já tenho namorado, e por nada deste mundo o quero perder. Não fiques triste, pois eu tenho a certeza que muito em breve encontrarás alguém que te mereça mais do que eu...

Até Lisboa, Luís e Sandra continuaram a conversa, num tom alegre e divertido. Luís, apesar de não demonstrar, ia um pouco triste, pois há alguns meses que vinha sentindo uma ligeira atracção por Sandra. Embora já esperasse aquela resposta, sempre manteve uma secreta esperança num hipotético namoro com Sandra. Nos últimos minutos, Luís permaneceu calado. Encostou a sua cabeça ao ombro da amiga e adormeceu.

Já em Lisboa, na Praça José Fontana, despediram-se até ao início do 3.º período, pois as férias da Páscoa começariam a partir daquele momento.

 

CONTINUA...

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