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25
Jul17

Capítulo 18

por Pedro Rodrigues

Depois da entrega dos trabalhos, António Pavão disse:

- Agora que acabámos as Crónicas de Fernão Lopes, vamos começar já com a Castro do António Ferreira. Já alguém tem o livro?

Perante a resposta positiva de toda a turma, António prosseguiu:

- Óptimo! Então agradecia que já o trouxessem amanhã... Bem, antes de iniciarmos o estudo desta nova obra, vou fazer-vos algumas perguntas sobre a Castro. Por exemplo... alguém sabe do que trata esta obra?

- Do romance do nosso rei D. Pedro com Inês de Castro, que levou à execução desta.

- Exactamente, Rui! Agora falando do seu autor, alguém sabe quem foi António Ferreira?

Perante o silêncio de toda a turma, António Pavão prosseguiu:

- As informações que possuímos sobre a vida de António Ferreira são pouco pormenorizadas, no entanto poderemos afirmar alguns factos com suficiente credibilidade. Nasceu em Lisboa, em 1528, filho de um escrivão da fazenda do Duque de Coimbra, Dom Jorge de Lencastre. Frequentou o curso de Humanidades e Leis e doutorou-se em Cânones na Universidade de Coimbra, tendo sido, temporariamente, professor desta universidade. Em 1556 casou com D.ª Maria Pimentel, senhora de Torres Novas, que morreu no terceiro ano de casamento. Voltou a casar, em 1564, com D.ª Maria Leite, de Cabeceiras de Basto. Em 1567 foi nomeado Desembargador da Relação de Lisboa. Em 1569, com apenas 41 anos, morreu em Lisboa, vitimado pela peste, deixando dois filhos. Um destes filhos publicará, anos mais tarde, toda a obra do pai em Poemas Lusitanos.

António Pavão fez uma pausa de poucos segundos, e prosseguiu...

- Nesta primeira aula sobre António Ferreira iremos debruçar-nos, essencialmente, sobre a sua obra. No tocante à poesia, encontramos sonetos, epigramas, odes, elegias, éclogas, epitalâmios, cartas, epitáfios, um poema religioso (História de Santa Comba dos Vales). No aspecto de estrutura formal, António Ferreira aperfeiçoou a carta e a elegia, e foi o introdutor em Portugal do epigrama, da ode e do epitalâmio. Todas estas formas são elaboradas sobre modelos italianos, latinos e gregos. Os principais temas encontrados nos seus poemas são o amor petrarquista, elementos bucólicos, tópicos tipicamente renascentistas, religiosidade, os escritores e a sociedade e a arte poética. Passando à comédia, para uma melhor compreensão dos seus textos torna-se necessário um enquadramento prévio. Os autores quinhentistas portugueses - Sá de Miranda, António Ferreira e Camões - tentaram adaptar ao seu tempo a comédia romana de Plauto e Terêncio e a italiana renascentista. De uma maneira ou de outra, foram estes os autores imitados pelos renascentistas, primeiro pelos italianos, depois pelos portugueses e a generalidade dos escritores europeus. E é aqui que se inserem as comédias de António Ferreira. Alguma dúvida? - perguntou António Pavão com um sorriso algo irónico.

- Temos de saber isso tudo, stôr?!

- Convém, pelo menos, saberem alguma coisinha... Mas não se preocupem. Tudo isto que acabo de vos ler está na introdução desta obra no livro da Ulisseia. Quem não o tiver pode sempre pedir a um colega e tiram umas fotocópias. Agora, antes de terminar a aula, vou ler-vos um soneto que António Ferreira dedicou à sua primeira mulher, escrito após a morte da mesma. Para quem tem o livro da Ulisseia, poderá encontrá-lo na página 64.

António Pavão fez uma pausa, abriu o seu livro na dita página, respirou fundo e começou:

 

Com que mágoa (ó Amor) com que tristeza

Viste cerrar aqueles tão fermosos

Olhos, onde vivias, poderosos

De abrandar com vista a mor dureza!

 

Roubada nos é já nossa riqueza,

Nossos cantos serão versos chorosos,

E suspiros tristíssimos, queixosos

Da morte, que nos pôs em tal pobreza.

 

Eu perdi o meu bem: tu, Amor, tua glória.

Eu o meu Sol: e tu teu doce fogo

Honesto, e santo ao Mundo, raro exemplo.

 

Mas viva será sempre a alta memória

Daquela, que nos Céus viva contemplo,

A quem humilde peço ouça meu rogo.

 

- Podem arrumar e sair. Até amanhã!

Depois da aula terminada, vêm todos para a porta da escola.

- Que seca de aula! Estava a ver que nunca mais tinha fim - queixa-se André. - Com esta matéria tão "interessante", estou mesmo a ver o que me vai acontecer...

- Não digas isso, André! Não é por a matéria ser uma seca que te vais desinteressar pelas aulas. Não há aqui ninguém que goste disto, mas todos sabemos que não temos outro remédio senão estudarmos para conseguirmos, no mínimo, tirar um 10.

- A Susana tem razão, André! Olha, se quiseres nós ajudamos-te. Que me dizes disto?

- Ajudarem-me como, Rui?

- A gostares mais desta matéria!

- Como?!

- Havemos de encontrar uma solução, não te preocupes!

Luís e Sílvia afastaram-se dos seus amigos, entrando novamente na escola. A um canto beijaram-se. Enquanto caminhavam para a porta da sala onde teriam a próxima aula, Luís disse:

- Esta manhã fui à Junta de Freguesia de São Jorge de Arroios informar-me sobre o dia e o local da minha inspecção militar.

- E então?

- Vai ser no dia 24 de Março, em Setúbal.

- Achas que vais ficar apto?

- Não sei, mas é o mais certo...

- E qual é o teu desejo?

- O que eu mais queria era ficar livre, mas não acredito. Não tenho qualquer impedimento físico.

- Isso não quer dizer nada, há tanta gente que vai para a reserva...

 

No final de mais um dia de aulas, Sílvia perguntou a Luís:

- Vens à festa de sábado?

- Que festa?!

- Aqui na escola à noite. Há baile, comes e bebes...

- Se tu vieres...

- Claro que venho! Então ia faltar a uma festa da escola?!

- A que horas?

- Dez da noite.

- Posso trazer mais alguém?

- Quem tu quiseres! Mas quem não é aluno tem de pagar, 300 escudos por pessoa.

- Se calhar convido as minhas primas... - disse Luís, olhando para o relógio. - Tenho de ir embora... dentro de uma hora tenho de estar em Odivelas numa festa de aniversário de um tio meu. Amanhã falamos melhor sobre a festa...

- Está bem, Luís. Até amanhã! - disse Sílvia, beijando Luís.

- Até amanhã, mon amour!

 

CONTINUA...

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