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27
Jul17

Capítulo 22

por Pedro Rodrigues

16 de Fevereiro de 1993.

Naquela noite, Sílvia não conseguiu pregar olho. As recordações de cinco meses de namoro e as palavras dos pais na última noite vieram-lhe à memória. Naquela manhã não lhe apetecia nada ir à escola. Quando se lembrava do que dissera na véspera a Luís, que nunca o abandonaria, não tinha coragem para lhe dar a terrível notícia da sua ida para Paris a partir de Julho. Mas se, por um lado, Sílvia não queria dar aquela triste notícia ao namorado, poupando-o a outro drama amoroso, por outro, ao encobrir toda a verdade, Sílvia estaria a criar falsas expectativas sobre uma relação que não teria futuro. E aí, as consequências poderiam passar, quiçá, pela perda de uma amizade que Sílvia queria preservar para sempre. Foi com este pensamento que Sílvia se levantou, para enfrentar aquele que seria, até à data, o mais difícil dia da sua vida.

 

Quando Sílvia chegou à porta do Liceu Camões faltavam pouco mais de cinco minutos para a primeira aula do dia. Felizmente, a primeira pessoa que encontrou foi Carla. Depois de a cumprimentar, abraçou-se à amiga a chorar.

- O que é que tens, Sílvia?! - perguntou Carla admiradíssima, pois nunca tinha visto a amiga chorar.

- Ajuda-me Carla... estou desesperada!

- Se me contares o que se passou, talvez te possa ajudar...

- Lembras-te de eu te falar da possibilidade dos meus pais irem trabalhar para Paris?

- Sim, mas...

- Eles conseguiram esse objectivo! A partir de Julho, os meus pais e eu vamos viver para Paris...

- E no meio disso tudo, como é que fica o teu namoro com o Luís?

- Não sei... pedi-lhes que se lembrassem de mim e do sofrimento que iriam causar, não só em mim, mas também ao Luís, mas eles continuam irredutíveis. O que hei-de fazer? A única alternativa que eles me dão é continuar com este namoro à distância... ou então acaba-se tudo!

- Isso é ridículo! Nunca pensei que os teus pais fossem tão ambiciosos ao ponto de fazer sofrer a própria filha...

- Eu também, sinceramente, não esperava isto deles, mais a mais depois do Luís ter sido tão bem recebido e de me deixarem, por duas vezes, ir sozinha com ele para o Norte!

- O que pensas fazer?

- Achas que deva contar já ao Luís?

- Penso que é o melhor que tens a fazer! Por muito que te vá custar, acho que não deves criar grandes ilusões ao Luís sobre o futuro da vossa relação. Penso que não faz sentido continuar com um namoro a uma distância tão grande... mas se não lhe mentires, creio que, mesmo tão distantes um do outro, podem continuar a ser grandes amigos.

- Foi isso mesmo que eu pensei, Carla... vale mais um pássaro na mão do que dois a voar.

- É isso mesmo, amiga!

Naquele preciso instante, o toque a chamar para as aulas interrompeu a conversa das duas amigas. Como iriam ter Português, Sílvia não iria ficar junto de Luís, por isso teria cerca de 50 minutos para pensar na melhor maneira de lhe contar a triste resolução que os seus pais tomaram. Ao entrar na sala, o seu olhar cruzou-se com o de Luís, mas naquela manhã, no lugar de um sorriso, Sílvia ostentava umas olheiras bem profundas e uma tristeza infinita. Assim que a viu, Luís levantou-se de imediato para ir cumprimentá-la, mas ao tentar beijá-la Sílvia impediu-o pondo a sua mão nos lábios de Luís.

- O que se passa?!

- No fim da aula... temos de conversar, Luís - disse Sílvia, virando as costas ao namorado.

Após aquela atitude de Sílvia, Luís não conseguiu prestar atenção a nada do que António Pavão dizia. Durante toda a aula, ele e Sílvia não conseguiram despregar os olhos um do outro. Por mais que pensasse, não via a razão para aquela atitude da namorada.

 

Assim que o toque os libertou da aula de Português, Luís e Sílvia arrumaram as suas coisas o mais depressa possível e, sem trocarem uma única palavra, dirigiram-se até um canto da escola que ambos gostavam muito. Luís foi o primeiro a quebrar o silêncio.

- Que se passa contigo, Sílvia?!

Esta, sem conseguir conter a tristeza que sentia, abraçou-se a Luís a chorar. Mas depois tentou acalmar-se, respirou fundo e resolveu enfrentar de vez a situação:

- Luís... por muito que me custe, tenho de te dizer que o nosso namoro não tem futuro... temos de acabar aqui e agora!

- O quê?!

- Cometeram uma grande injustiça connosco, Luís. Como tu sabes, os meus pais trabalham na Portugal Telecom...

- Sim, mas...

- Calma, deixa-me acabar... o que tu não sabes é que tenho um tio que trabalha na France Telecom, em Paris, e que há cerca de um ano levantou a hipótese de levar os meus pais para lá. Ontem, ao chegar a casa, os meus pais tinham esta terrível novidade à minha espera. Em Julho vou com eles para França... perdoa-me, mas não consegui fazer com que os meus pais mudassem de ideias. A única maneira de continuarmos com este namoro é à distância...

- Eu não acredito no que estou a ouvir! Depois de tudo o que passámos juntos...

- Luís, faz qualquer coisa para tentares convencer o meu pai a recusar a proposta que lhe fizeram. Por favor... eu não te quero perder!

- Não é preciso, Sílvia. Não é a distância que há-de acabar com o nosso namoro. Mesmo contigo a milhares de quilómetros eu sei que posso confiar em ti. Se é por causa disto que hoje vieste tão triste, e cheia de olheiras, podes estar descansada. É preciso muito mais do que isto para nos separar... nem que fosses para a Cochinchina! E Paris não é assim tão longe como parece. É já ali ao virar da esquina!

- Oh, Luís! Só tu é que me fazes sentir assim numa hora destas! Tens mesmo a certeza do que acabas de dizer?

- Claro, Sílvia!

- E como é que vamos fazer para nos vermos mais a miúdo?

- Tirando as férias grandes, vai ser mais difícil... mas temos de nos adaptar a este novo contexto. Tenho umas poupanças guardadas... se os teus pais deixarem, irei passar todas as férias grandes contigo. Que me dizes?

- Seria excelente, mas para isso tens de convencer os meus pais...

- Tenho a certeza que isso não será o mais difícil!

- Logo já falo com eles... - disse Sílvia beijando Luís, no momento exacto em que tocava para as aulas.

 

CONTINUA...

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