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05
Ago17

Capítulo 35

por Pedro Rodrigues

2.ª Feira, 20 de Setembro de 1993.

Ao chegar à escola, no primeiro dia de aulas do novo ano lectivo, Luís teve uma notícia que o entristeceu muito. O seu grande amigo João tinha mudado de casa e, consequentemente, de escola. Para além de João, também André tinha abandonado o Liceu Camões, mas este para ir tirar um curso profissional. Com as saídas de Sílvia, João e André, a turma estava reduzida a catorze alunos.

Para além das saídas, Luís notou que a turma estava diferente. Maria e Inês, duas grandes amigas no último ano, tinham-se zangado. Tudo por causa de Filipe, namorado de Maria até há pouco tempo. Maria deixou de falar a Inês a partir do momento em que a encontrou a tentar seduzir Filipe. A partir desse momento, a turma passou a viver numa permanente paz podre. Com a zanga entre as duas, passou a haver o grupo dos que defendiam aquela e outro dos que apoiavam esta... apesar de conviverem todos entre si. Entre os que defendiam Maria estavam a Sandra, a Ana, o Rui, o Mário, o Carlos, a Tânia, a Susana e o Manuel. A Carla, a Filipa e a Luísa estavam do lado de Inês. Luís que, desde a primeira hora se assumiu como "independente", cada vez mais estava virado para o lado de Maria.

No que respeita a professores, foi um ano com quatro novidades. Para além de já não terem de aturar a professora Laura, tinham dois novos professores que puseram as raparigas de cabeça às avessas. Eram eles os professores de Sociologia e Filosofia, respectivamente Paulo Sobreiro e Alberto Amaral. Em Relações Públicas tinham uma professora simplesmente desconcertante. Maria Teresa tinha tanto de exigente como de simpática. Dava "carradas" de matéria, mas de uma maneira simples, que cativou de imediato a turma. Em Educação Física tiveram o "Rambo", alcunha do novo professor, assim chamado pelas parecenças físicas com aquele. Desde o primeiro minuto meteu na cabeça dos seus alunos que quem mandava ali era ele e, obviamente, era ele quem decidia o que iriam fazer nas aulas, exactamente o oposto do professor Tomás. Para lá de todas estas novidades, continuavam com a Maria Lima a Francês, com o António Pavão a Português, a Isabel Antunes a Inglês, o Francisco Santana a História e a Cristina Faria a Jornalismo.

A Português começaram o ano com excertos do livro de Almeida Garrett, "Folhas Caídas". O poema "Os Cinco Sentidos" ficou gravado na memória dos alunos, pela forma apaixonante como foi lido por António Pavão.

 

São belas - bem o sei, essas estrelas,

Mil cores - divinais têm essas flores;

Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:

Em toda a natureza

Não vejo outra beleza

Senão a ti - a ti!

 

Divina - ai! sim, será a voz que afina

Saudosa - na ramagem densa, umbrosa,

Será; mas eu do rouxinol que trina

Não oiço a melodia,

Nem sinto outra harmonia,

Senão a ti - a ti!

 

Respira - n'aura que entre as flores gira,

Celeste - incenso de perfume agreste.

Sei... não sinto: minha alma não aspira,

Não percebe, não toma

Senão o doce aroma

Que vem de ti - de ti!

 

Formosos são os pomos saborosos,

É um mimo - de néctar o racimo:

E eu tenho fome e sede... sequiosos,

Famintos meus desejos

Estão... mas é de beijos,

É só de ti - de ti!

 

Macia - deve a relva luzidia

Do leito -  ser por certo em que me deito.

Mas quem, ao pé de ti, quem poderia

Sentir outras carícias,

Tocar noutras delícias

Senão em ti - em ti!

 

A ti! ai, a ti só os meus sentidos

Todos num confundidos

Sentem, ouvem, respiram;

Em ti, por ti deliram.

Em ti a minha sorte,

A minha vida em ti;

E quando venha a morte,

Será morrer por ti.

 

E assim foi passando o primeiro período. À medida que o tempo ia correndo, tornava-se cada vez mais evidente a rivalidade entre Maria e Inês. Numa gélida manhã de Novembro, esta tentou uma aproximação, mas Maria, orgulhosa como era, declinou o pedido de perdão da sua ex-amiga. Inês não queria acreditar no que ouvia. Maria, para além de um rotundo não, insultou a ex-amiga com quantos nomes havia. Inês refugiou-se a um canto do pátio. Luísa, Filipa e Carla tentaram consolar a amiga, mas naquela manhã Inês queria estar sozinha com as suas mágoas, pois não percebia muito bem porque razão Maria a ofendera tanto.

Acrescentando a tudo isto, tiveram pela frente um período de aulas cansativo, marcado pelo exaustivo resumo lógico da "Menina dos Rouxinóis" de Garrett. A 11 de Outubro, numa noite de chuva e trovoada, foram assistir à gravação do concurso televisivo "Entre Famílias"; a 19 de Novembro foi a vez do programa "Isto... Só Vídeo". Luís e Sílvia continuavam os seus contactos semanais via telefone.

 

Nas férias do Natal, Luís foi à terra passar aquela festividade com a família e amigos. A 26 de Dezembro, um domingo, como havia combinado com Álvaro, Sílvia veio a Portugal passar uma semana, aproveitando para visitar os seus velhos amigos. À chegada ao aeroporto, apenas duas pessoas esperavam por ela: Luís e Carla. Depois de um longo abraço ao namorado e à amiga, perguntou:

- Não veio mais ninguém?!

- Está praticamente tudo para fora de Lisboa, mas não te preocupes porque vais ver a malta toda na noite de ano novo.

- Onde?!

- No mesmo local onde te fizémos a festa de despedida. Lembras-te?

- Ia-me lá esquecer disso, Carla! Onde é que eu vou ficar?

- Em minha casa - disse Luís.

- Óptimo!

- Já combinei com o Luís que vocês hoje iam jantar comigo...

- Oh Carla, para quê estares a incomodar-te?

- Nada disso... como tua melhor amiga, acho que tenho o direito de te "ter" por uma noite. Afinal de contas, vais cá estar tão pouco tempo...

- Lá isso é verdade! Uma semana não vai dar para nada, e além disso ainda quero fazer uma visita aos meus amigos de Ovar.

- Então do que é que estamos à espera?!

Luís, Sílvia e Carla foram a casa daquele arrumar as bagagens de Sílvia. Depois, e como já passavam das sete horas, foram para casa de Carla, onde jantaram e ficaram à conversa até bem tarde.

No dia seguinte, fazendo a vontade a Sílvia, Luís e esta foram até Ovar, onde Sílvia reviu a sua grande amiga Sofia, bem como o Daniel, a Fernanda, a Teresa e os avós de Luís. O regresso a Lisboa só foi "possível" no último dia do ano.

 

CONTINUA...

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2 comentários

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De PP a 06.08.2017 às 17:45

Que saudades destes tempos.
Bom seria que os alunos do secundário ainda pudessem respirar um pouco, como nós, naqueles tempos. Atualmente, por vezes, ao invés de se zangarem os alunos, zangam-se os pais. Inveja daqui, de acolá...
Como passamos do 8 ao 80...
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De Pedro Rodrigues a 06.08.2017 às 17:48

Nos dias de hoje, se for preciso, até o pai ou a mãe batem num professor... antigamente era assim: ai puxou-te a orelha, ou levaste um calduço?! Havia de ser pior! :D

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