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26
Ago17

Capítulo 68

por Pedro Rodrigues

No dia seguinte, ao fim da tarde, Luís foi a casa de Sílvia.

- Boa tarde! Posso entrar?

- Mas tu és o... Luís! Que surpresa! Há quanto tempo!

- É verdade, D.ª Catarina... desde aquelas férias de Natal que passei em Paris...

- Tenho tantas saudades desses tempos. Desde que voltámos para Portugal a nossa vida tem sido um inferno...

- Como assim?!

- Por causa da Sílvia. Juntou-se aí com uma turma que nem te digo nada! Desde que acabou o 12.º ano só nos tem metido em sarilhos...

- Pode-me contar isso mais em pormenor?

- Esquece, Luís... não te quero encher a cabeça de preocupações.

- Nada disso, D.ª Catarina! Quem sabe se eu não possa ajudar...

- Ajudar, como?! Desde que o Álvaro a pôs fora de casa ninguém sabe onde a Sílvia se meteu...

- Quanto a isso não se preocupe! A Sílvia está bem. A sua filha está em casa de uma amiga minha. Eu e a Maria estamos a olhar por ela.

- Oh Luís, nem sei como te agradecer!

- Agora conte-me tudo o que a Sílvia tem feito neste último ano...

- Quando nos mudámos para cá, a Sílvia conheceu uma rapariga ali de Campo de Ourique. Em pouco tempo tornaram-se grandes amigas. A tal miúda apresentou-lhe a turma dela e, em pouco tempo, a Sílvia foi-se integrando no grupo. A partir dai começaram os problemas. Nas noitadas que faziam acabava sempre por haver sarilhos. Para além de fumarem charros, ainda praticavam pequenos roubos, num dos quais a Sílvia chegou a passar uma noite na cadeia.

- Que horror!

- Felizmente, uns dias depois começou a dar-se aqui com um vizinho nosso. Desde que começaram a sair juntos até ao namoro foi um pequeno passo. Só que o Rúben é muito desconfiado, e quando a Sílvia saía com o grupinho de Campo de Ourique ele ficava sempre de pé atrás.

- E com razão...

- Até que a Sílvia nos apareceu a chorar e a dizer que estava grávida e, pior do que isso, que o Rúben a abandonara...

- Parece incrível, mas a Sílvia contou-nos uma história completamente diferente. Para lá de que esse tal Rúben a tinha abandonado, só nos disse que ele lhe era infiel. Segundo a Sílvia, era ele que andava a enganá-la, chegando mesmo a apanhá-lo em flagrante. Para si, qual dos dois está a dizer a verdade?

- Sinceramente, não sei... desde que tu acabaste com ela que a Sílvia mudou muito. Principalmente desde o nosso regresso a Portugal.

- Olhe, D.ª Catarina, pela Sílvia ainda meto a mão no fogo. Enquanto namorámos, e foram quase dois anos, nunca ela me foi infiel.

- Sim, isso é verdade... no primeiro ano que passámos em França não lhe faltaram pretendentes. A Sílvia amo-te muito, Luís! Para te dizer a verdade, penso que ainda te ama...

- Isso agora não vem ao caso, D.ª Catarina. O que me trouxe aqui foi descobrir as razões que levaram o Álvaro a expulsá-la de casa, precisamente na altura em que ela mais precisava do vosso conforto...

- O Álvaro estava farto das asneiras da filha... ele pensa que esta atitude dele irá tornar a Sílvia mais madura.

- Não concordo, nem um pouco, com esse ponto de vista...

- Qual era, então, o melhor caminho?

- A Sílvia contou-me que o Rúben é um menino mimado, tipo playboy...

- Lá isso é verdade... os pais do Rúben são pessoas endinheiradas e o filho, naturalmente, pensa que tem o rei na barriga.

- Uma coisa é certa! Se a Sílvia não mentiu, e eu tenho a certeza que não, se o Rúben a amasse de verdade penso que não a abandonava desta maneira. Portanto, acho que não faz sentido obrigá-lo a voltar para ela.

- Claro que não, mas penso que deveríamos obrigá-lo, pelo menos, a ajudar a nossa filha na educação da criança.

- A Sílvia não pensa assim. Ela apenas quer voltar para casa.

Naquele momento, Álvaro entra na sala.

- Boa tarde!

- Álvaro... lembras-te do Luís?

- Claro que sim! Como tens passado, jovem?

- Estou óptimo! O mesmo já não poderei dizer da vossa filha...

- Por favor, Luís, não me fales da Sílvia!

- Foi precisamente pela sua filha que vim até aqui hoje, Sr. Álvaro!

- Não sabia que ela agora precisava de intermediários...

- Vim aqui por minha própria iniciativa. Francamente, Sr. Álvaro! Expulsar uma filha de casa, precisamente na altura em que ela mais precisava de vocês...

- Luís, não aceito lições de moral!

- Não acha que eu tenho razão, Sr. Álvaro?!

- Luís, a minha filha só volta a entrar nesta casa no momento em que aceitar o Rúben de volta...

- Precisamente o que ela não quer... ponha-se no lugar dela! Acha justo a sua filha viver com um rapaz que não a ama?

- O Rúben ainda gosta da minha filha...

- Se gostasse não a tinha traído e, pior, não a tinha deixado só porque ela está grávida!

- E tens assim tanta certeza de que o bebé que a Sílvia espera é mesmo do Rúben?

- Sr. Álvaro, pela Sílvia ainda meto as mãos no fogo...

- Olha que te queimas!

- Não se preocupe e pense numa coisa! Nos quase dois anos em que eu e ela namorámos, aponte uma ocasião em que ela me foi infiel!

- Que me lembre, nenhuma... o mesmo já não se pode dizer de ti!

- Isso agora não é para aqui chamado... só quero que o senhor compreenda que a Sílvia amava o Rúben de verdade. É natural que ela ainda goste dele... mas você acha que devia ser a Sílvia a procurá-lo?

Álvaro estava a cair em si.

- Não, mas...

- Sr. Álvaro... pela nossa amizade e pela sua filha, peço-lhe que volte com a palavra atrás e aceite a Sílvia de volta a esta casa.

Catarina, à muito tempo calada, disse:

- Álvaro... faz o que o Luís te pede...

- E onde está a Sílvia neste momento?

- Em casa de uma amiga minha, na Rua Pascoal de Melo.

- Eu mesmo vou lá buscá-la...

- Oh Álvaro, estou tão contente!

 

Enquanto se dirigiam para casa de Maria, Álvaro disse:

- Temos que dar uma lição ao Rúben...

- Quanto a isso não se preocupe! Eu, a Sílvia e uns amigos meus já montámos um plano para darmos uma lição a esse playboyzinho de meia-tigela. Não o vamos obrigar a nada, só queremos que ele peça desculpa à Sílvia e que assuma, ao menos, que o filho é dele.

- Vai ser difícil...

- Isso é o que nós vamos ver!

 

Naquele exacto momento, Sílvia encontrava-se sozinha em casa a ler um livro que Maria lhe emprestara. Quando ouviu a campaínha, fechou o livro e correu para abrir a porta.

- Pai?! Como é que me descobriu aqui?

- Isso agora não interessa, filha... só quero que me abraces e me perdoes...

- Depois de tudo o que me fez passar, acha que lhe devo perdoar?

- Eu sei que errei, mas no momento em que me disseste que estavas grávida, pura e simplesmente fiquei fora de mim... e tu sabes como eu sou quando me põem assim! Felizmente o teu amigo Luís veio falar comigo e fez-me ver o quanto eu estava errado e, pior do que isso, o quanto eu fui injusto contigo. Por favor filha, volta para casa...

Naquele momento apareceu Luís.

- Sílvia, perdoa ao teu pai...

Ao ver Luís, Sílvia correu para ele e abraçou-o.

- Obrigada por tudo, Luís... és um amigão! Entrem! A casa não é minha, mas convido-vos na mesma.

Após uma curta conversa, Sílvia decidiu que o melhor era regressar a casa. Fez a mala e, como estava sozinha em casa, pediu ao pai que esperassem por Maria. Quando esta chegou, ficou admirada por ver Sílvia de malas feitas.

- Vais-te embora?

- Antes de mais nada, apresento-te o meu pai...

- Prazer, senhor...

- Álvaro.

- Fico feliz por ver que o Sr. Álvaro tenha voltado com a palavra atrás.

- Se não fosse aqui o Luís...

- Isso agora não interessa para aqui! Se não fosse o pai a pôr-me fora de casa eu e a Maria não tínhamos feito as pazes - disse Sílvia, abraçando a amiga.

- Fico muito contente por isso. Depois de tudo o que fizeste à Maria...

- Isso já pertence ao passado, Sr. Álvaro... não falemos mais disso.

- Como é que é amanhã? Também quero entrar na "festa"!

- Conhece bem o Jardim da Estrela?

- Como a palma da minha mão!

- Óptimo! Então amanhã estaremos à sua espera na entrada da Avenida Álvares Cabral...

- A que horas?

- Três... dá para si?

- Perfeitamente! Bom... vamos embora, filha?

- Vamos... Maria, uma vez mais, muito obrigada por tudo!

- Não tens nada que me agradecer, Sílvia... volta sempre que quiseres!

Após mais um longo abraço, Sílvia pegou na mala e saiu para o exterior, juntamente com o pai. Luís ficou mais um pouco a conversar com Maria. Eram quase oito horas quando se despediu da amiga. Às nove tinha combinado encontrar-se com Sandra para irem jantar fora.

 

CONTINUA...

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