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26
Ago17

Capítulo 69

por Pedro Rodrigues

Antes de ir a Campo de Ourique, Luís foi às Amoreiras comprar um ramo de rosas para oferecer a Sandra. Faltavam uns cinco minutos para as nove quando bateu à porta da namorada.

- Boa tarde! Como está a minha princesa? Flores para a mais bela flor... - disse Luís, estendendo um ramo de rosas para Sandra.

- Obrigada, Luís! São lindas!

- Onde é que queres ir jantar?

- Se não te importares, gostava de ir a um chinês...

- Acho uma excelente ideia! Que tal aquele onde fomos jantar no final do 11.º ano?

- Hmm... preferia ir para um local onde não corresse o risco de encontrar gente conhecida. De preferência, fora de Campo de Ourique.

- Porquê?!

- Para estarmos mais à vontade...

- E que tal o Bairro Alto?

- Até podia ser nas Galinheiras! Desde que não seja em Campo de Ourique...

Antes de sair, Sandra pôs o ramo de rosas que Luís lhe oferecera numa jarra com água. Depois, de mãos dadas, saíram para a rua.

- Então, conseguiram resolver o problema da Sílvia?

- Em parte, sim... pelo menos conseguimos convencer o pai a aceitá-la de volta a casa. Amanhã vamos tentar o mais difícil, ou seja, fazer com que o ex-namorado dela assuma as responsabilidades.

- Espero que consigam!

- Garanto-te que sim! Já temos um plano montado para lhe pregarmos um valente susto.

- Que plano?!

- Se puderes, está amanhã quando faltarem uns cinco minutos para as três na porta do Jardim da Estrela, junto ao Pedro Nunes.

- Não prometo, mas vou tentar...

 

Como combinado, jantaram num acolhedor restaurante chinês do Bairro Alto, junto ao elevador da Glória e ao jardim São Pedro de Alcântara. A seguir ao jantar desceram ao Camões, onde decidiram apanhar o eléctrico 28 em direcção à Graça, segundo Sandra um dos mais bonitos percursos de Lisboa. No Largo da Graça abandonaram o eléctrico e subiram até à Ermida da Senhora do Monte. Entre beijos e abraços puderam contemplar um dos mais belos panoramas da cidade, abrilhantado pelas luzes que iluminavam Lisboa. Para onde quer que olhassem, tinham sempre o Tejo como pano de fundo. Logo ali, à sua esquerda, a torre sineira da Igreja da Graça. Colado a esta, um outro miradouro com esplanadas, com vista sobre o Martim Moniz, de onde parte um curioso conjunto de escadinhas que vai desembocar no Poço do Borratém, o Caracol da Graça. De ambos os lados da colina do Castelo a Outra Banda, onde é possível identificar pontos emblemáticos como o pórtico avermelhado da Lisnave, o Forte de Almada e, ao longe, por detrás do casario do Barreiro, a Serra da Arrábida. Continuando a planar o olhar pela cidade, da esquerda para a direita, no meio de frondoso arvoredo a torre da Igreja do Menino de Deus, por detrás do Castelo de São Jorge, que domina toda a paisagem. No Rossio, visível deste ângulo, a estátua de D. Pedro IV e a Igreja de São Domingos. Um pouco mais à direita, o Hospital de São José e o vasto terreiro do Martim Moniz que, tal como o lendário guerreiro de quem tomou o nome, continuava "entalado" entre projectos contraditórios de gestão urbanística. Já do outro lado do Rossio, destaca-se o Convento do Carmo, a que já chamaram "a ruína mais bem conservada de Lisboa". Um pouco mais longe, o inconfundível zimbório da Basílica da Estrela e, num plano mais próximo, o verdejante vale da Avenida da Liberdade e, em frente, o Miradouro de São Pedro de Alcântara. No topo da avenida, a fachada principal do Pavilhão dos Desportos rodeado pela mancha verde do Parque Eduardo VII. Um pouco mais à frente, a Igreja de São Sebastião e a Alameda Afonso Henriques, limitada num topo pelo Instituto Superior Técnico e no outro pela monumental Fonte Luminosa. Perto, os não menos inconfundíveis "torreões" do Areeiro. A Igreja da Penha de França vem a seguir e, por trás do Bairro das Colónias, ergue-se o Miradouro do Monte Agudo.

Após esta volta virtual por Lisboa, decidiram regressar ao mundo real. A brincar, a brincar, quase uma hora se tinha passado, entre abraços, beijos e doces carícias, enquanto contemplavam a cidade. Sandra continuava a ser a guia de Luís que, para dizer a verdade, nunca tinha vindo para estas bandas. Aproveitando o facto da Ermida da Senhora do Monte ainda estar aberta, decidiu conduzir o namorado ao seu interior. Lá dentro, Sandra sentou-se num cadeirão de pedra que, segundo a tradição, pertenceu a São Gens, o primeiro bispo de Lisboa. Naquele instante, Sandra quebrou o silêncio que se tinha estabelecido desde que entraram naquele local de culto.

- Trouxe-te até aqui para te contar uma novidade em primeira mão...

- Novidade?!

Sandra pegou na mão de Luís e colocou-a sobre a sua barriga.

- Segundo a lenda, toda a mulher grávida que se sentar neste cadeirão de pedra terá um parto sem problemas...

- Oh Sandra, tu estás... estás grávida?!

Perante o sorriso da namorada, Luís pegou-lhe nas mãos e disse-lhe:

- Não imaginas como estou feliz, Sandrinha! Amo-te tanto! Que Deus abençoe esta criança...

 

No dia seguinte, Luís e Sandra foram os primeiros a chegar ao portão Norte do Jardim da Estrela, situado junto ao Liceu Pedro Nunes. Às três em ponto chegaram Álvaro e Sílvia, logo seguida por Carlos e Ricardo, amigos de Luís. Sandra, que já não via Carlos praticamente desde que tinham abandonado o Camões, ficou surpresa ao ver o ex-colega.

- Oh Carlos... há quanto tempo, pá!

- É verdade, Sandra... como é que vai a minha amiga?

- Óptima, e tu?

- Faz-se por isso, não é?

Após os cumprimentos e as apresentações feitas, Sílvia e Luís encabeçaram o grupo.

- Estão todos bem cientes do que nos trouxe aqui, não estão?

- Não te preocupes, Luís! Sabemos perfeitamente o que temos a fazer...

- Óptimo!

Com Sílvia e Luís à cabeça do grupo, começaram a dirigir-se ao miradouro do jardim. Quando avistaram o ponto mais alto do mesmo, Sílvia desviou o seu olhar para lá e viu Rúben, de costas para o sítio onde eles se encontravam.

- Vamos fazer o seguinte! Eu vou lá acima ter com ele, enquanto vocês ficam em baixo e impedem-no que ele se escape.

- Eu, a Sandra e o Carlos ficamos numa das entradas. O Sr. Álvaro e o Ricardo ficam na outra...

- E se ele nos vê?

- Não te preocupes, Sandra! O Rúben não vos conhece...

- Mas conhece o teu pai!

- Eu fico escondido nuns arbustos.

- Então até já!

- Boa sorte!

Sílvia separou-se dos amigos e dirigiu-se ao local onde se encontrava Rúben. Ao chegar junto do ex-namorado pôs-se ao lado dele a observar a paisagem alfacinha.

- Então, atrasei-me muito?

- Atrasaste-te muito?! Que me lembre, não marquei nenhum encontro contigo!

- Não sejas idiota! Já nem a minha voz reconheces ao telefone?

- Não sei do que estás a falar! Eu marquei aqui com a minha amiga Cristina...

- Estás convencido que marcaste com a Tina, mas quem falou contigo anteontem pelo telefone fui eu...

- Nesse caso não estou aqui a fazer nada...

- Será que já não sentes nada por mim? Será que todo o amor que dizias sentir por mim acabou, pelo simples facto de estar grávida?

- Amor?! Deves estar enganada! A única coisa que eu senti por ti, e ainda sinto, é uma enorme atracção física. E em relação ao facto de estares grávida, não te posso ajudar por dois motivos. Em primeiro lugar, para não prejudicar o meu bom nome, e em segundo...

- Basta! Não quero ouvir mais nada dessa tua boca nogenta! Desaparece da minha vida!

- Calma, Sílvia! Não é preciso mandares-me fazer uma coisa que já devia ter feito há muito tempo...

E dito isto, Rúben virou as costas a Sílvia que, entretanto, se tinha sentado no chão a chorar. Ao chegar à base do miradouro, Rúben foi interceptado por Álvaro e Ricardo.

- Para onde pensas que vais, meu menino?

- Senhor Álvaro... que surpresa! Que faz você aqui?

- Ensinar-te a não fugires às tuas responsabilidades! - e dito isto, presenteia Rúben com um murro nos queixos.

- Mas o que é isto?! Garanto-lhe que isto não vai ficar assim! O meu pai...

- Será que não és homem suficiente para te defenderes sozinho? Se julgas que tenho medo do teu pai, estás muito enganado...

- Afinal de contas, o que é que vocês querem de mim?

Luís, que entretanto chegara, pergunta:

- Será que é preciso refrescar-te a memória?

- Calma, Luís, não é preciso mais violência. Este rapazinho sabe muito bem ao que eu quero chegar, mas não lhe convém aceitar a realidade para não sujar o nome de merda que usa...

- Não me ofenda...

- Quem és tu para me pedires uma coisa dessas, depois do que fizeste à Sílvia? Será que o teu pai já sabe? Ou será que estás à espera que eu lhe conte?

- Aquele filho não é meu...

Depois de presentear Rúben com outro murro, Álvaro disse:

- Foste tu que escolheste! Hoje mesmo o teu paizinho vai ficar a saber de tudo!

- Por favor, Sr. Álvaro... não conte nada ao meu pai!

- Para quê teres medo?! Não disseste agora mesmo que o filho que a Sílvia espera não é teu?

- Sim, mas...

- Chega, Rúben! Não precisas dizer mais nada! Esta tua reacção de cobarde explica tudo.

- Sr. Álvaro...

- Calado! Ainda não acabei! Rúben, para teu bem, para tua própria segurança, desaparece da vida da minha filha! Se julgas que a Sílvia vai precisar da tua ajuda para criar o vosso filho, estás muito enganado! E agora, se não te importares, desaparece da minha vista! Já!

Fazendo o que Álvaro lhe ordenara, Ruben começou a correr, só parando no final da descida, junto à porta de acesso à Rua de São Bernardo. Álvaro foi até junto de Sílvia, sentada no topo do miradouro, a chorar.

- Vamos embora, filha... aquele gajo não merece nem uma lágrima tua.

- Eu sei disso, mas... o que vai ser de mim, agora que estou grávida?

- Não te preocupes, Sílvia! Nós estamos aqui para o que der e vier, não é Luís? Tudo se há-de resolver!

- Isso mesmo, Sandra! Naquilo em que te podermos ajudar, podes contar connosco.

Sílvia, com um sorriso nos lábios, disse:

- Vocês não existem... obrigada por tudo!

- Como é... vamos embora?

- Não! Vamos todos lanchar à Dione!

O resto da tarde foi passada em amena cavaqueira. Sem se dar conta, Sílvia começava a construir os alicercer para uma nova amizade: Ricardo. Este já a tinha convidado para, quando tivesse tempo, aparecer na Junta de Freguesia de São Mamede. Para lá de ajudar a passar o tempo, sempre conhecia gente nova e, claro, poderia ser o princípio de novas amizades.

 

CONTINUA...

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